No começo do processo eleitoral, entrevistei o jornalista, blogueiro e boa praça Cesar Rocha. Rocha, que além de tudo ainda é meu amigo, explicou a matemática do voto proporcional. Agora, fiz com ele um pequeno balanço das eleições e da cobertura política nesse tempo. Se você ao final quiser dar uma passada no blog dele, é só apertar esse pitoco aqui.
Bodega: Quem ganhou as eleições no Brasil?
César Rocha: A base do governo Lula, mas principalmente o PMDB, campeão de votos, com 18 milhões de votos. O PT se abriu mais a alianças e perdeu espaço para o PMDB, mas cresceu em número de prefeituras. Depois vem o PSDB, o PT e o PP de Severino Cavalcanti, que comanda o Ministério das Cidades. Isso mostra o seguinte: o palanque de Lula na sucessão presidencial de 2010 passa pelo PMDB. É deste partido que deve sair o vice da candidata de Lula. Na oposição, o PSDB se confirma como principal legenda, muito à frente do DEM, que teve resultado pífio e deve seguir a reboque dos tucanos em 2010, inclusive porque não tem nomes para disputar a eleição presidencial. Os tucanos virão de Serra ou Aécio Neves.
Bodega: João da Costa, no Recife, está sendo julgado por suposto uso da máquina pública. Denúncias parecidas rolam no Brasil inteiro. Dá pra ganhar eleição jogando limpinho limpinho?
César Rocha: Claro que dá e é assim que tem que ser. Denúncias pipocam no Brasil inteiro exatamente porque o país está amadurecendo, ficou intolerante com desvios de conduta. Agora, no caso de João da Costa, ainda não é possível dizer que ele fez jogo sujo. O julgamento em primeira instância ainda será analisado por um colegiado maior, que vai dizer se houve ou não uso da máquina. Depois tem mais duas instâncias para confirmar ou não o resultado.
Bodega: Como era a rotina dos jornalistas que cobriram as eleições?
César Rocha: Cansativa, muito cansativa. Tinha que acompanhar as caminhadas dos candidatos, os eventos fechados e de rua, acompanhar as articulações políticas. Estamos todos de ressaca, estourados com o volume de trabalho.
Bodega: Os políticos aperreiam muito, fazem pressão?
César Rocha: Existe, sim, muita pressão. Alguns pressionavam na rua, quando encontravam os repórteres, reclamando de textos, fotos, legenda, de um tudo. Outros pressionavam diretamente na diretoria do jornal, reclamando também de reportagens, de pesquisas. E outros pressionavam em todos os lugares, de todas as maneiras e até na Justiça Eleitoral. No final da campanha, Mendonça pediu ao TRE para tirar meu blog da rede.
Bodega: Passadas as eleições, fazer o quê?
César Rocha: No curtíssimo prazo, é acompanhar transição nos principais municípios, formação de governo e, depois, acompanhar a administração. Da minha parte, meu desafio agora é tentar conseguir alterar a cobertura de políica, que continua muito voltada para o disse-me-disse, que é importante, não podemos menosprezá-lo. Mas o fundamental é fazer uma cobertura interessante da gestão pública, ao mesmo tempo em que acompanhamos a disputa de poder, os embates partidários, as movimentações visando as eleições de 2010. Não é fácil mudar isso. Para você ter uma idéia, há séculos só cobrimos Assembléia Legislativa e Câmara de Vereadores durante as sessões, no Plenário. Ninguém cobre as comissões, onde os projetos são discutidos. É preciso acompanhar a conseqüência dos discursos eleitorais. O candidato promete hoje e amanhã, quando ele for governo, temos que ver se saiu do papel. No caso do parlamento, monitorar o desempenho dos eleitos. Eles estão cumprindo bem as funções? Com ética e honestidade? De que maneira o trabalho deles está interferindo na nossa vida?
Bodega: Como você vê o uso da Internet nessas eleições, apesar de todas as proibições?
César Rocha: A internet está se consolidando como um instrumento fundamental para a democracia brasileira. As informações circulam com maior rapider, com maior diversidade e isso é muito bom para se evitar manipulações. Esse processo é acelerado nos grandes centros urbanos, mas está acontecendo num ritmo bom também no interior. Os jornais precisam observar isso. As grandes estruturas daprodução de notícias em papel não conseguem chegar com eficiência ao interior. Uma maneira de atender à demanda de notícias no interior com a eficiência e a viabilidade financeira que os jornais não têm, na minha opinião, é por meio da internet. Acho que a internet pode ser o grande instrumento de difusão de notícias mais aprofundadas, isentas e com a qualidade que os jornais aprenderam a produzir ao longo das décadas.
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