Estou em Belém desde as 11h de hoje.
Vim para facilitar (ou dificultar) oficinas de direito à comunicação para uma rede de rádios comunitárias, a convite da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos.
Depois de fazer uma breve visita à culinária local (aguarde texto específico), participei de uma reunião da articulação estadual do Movimento Nacional de Direitos Humanos.
Entre um assunto e outro, Fátima, militante da causa negra e feminista, resolveu relatar um episódio interessante.
Aconteceu quando ela esperava a Naza, que é como a turma daqui chama a Virgem de Nazaré, personagem principal do Círio de Nazaré, festa que para Belém no segundo domingo de outubro.
Vou deixar ela falar:
“Três universitários com crachá chegaram para mim. Perguntaram de que interior eu era. Eu disse: Belém. Eles fizeram cara de quem não acreditava. Acho que eu estava muito suada e descabelada para ser da capital, não sei.”
“Queriam fazer uma pesquisa sobre o perfil do romeiro. É simples, eu disse. O povo vem pedir tudo à Naza. Emprego pro filho, saúde pra a filha, viagem, casa nova. A turma pede tudo, claro. Isso pra mim quer dizer que o poder público não funciona. Então a política que existe é pedir tudo à Naza para ver se ela resolve.”
“Você pode acompanhar e ver. Ela quando passa, chega passa pesada de tanto pedido nas costas. Acho que vão ter que providenciar um ar-condicionado, uma roupa mais levinha que ela pudesse trocar durante o dia. Naquele calor, com tanta obrigação, ninguém lembra de perguntar à Naza o que é que ela realmente quer”.
“Os três ouviram, riram e anotaram tudo. Perguntaram se eu trabalhava em uma rádio comunitária. Aí quem ruim fui eu. Disse: ‘meus queridos, o que eu tenho é um radar. Arrumo confusão em qualquer lugar”.
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