Há muito mais entre o voto e a urna do que sonha muito candidato bem intencionado.

Hoje em dia, para se chegar à vitória eleitoral, não bastam boas idéais e propostas coerentes.

Pode se dar mal quem não tiver um bom planejamento de campanha, boa articulação, acordos (nem sempre gratuitos) com lideranças comunitárias e, antes de tudo, um monte (um moooooooonte) de dinheiro.

Para saber mais sobre esses ‘detalhes’, essa Bodega bateu um papo com um publicitário bom de urna. Nos últimos dez anos, ele participou de pelo menos vinte campanhas (majoritárias e proporcionais) em todo o Brasil. Sem se identificar – por motivos óbvios – o especialista deixou claro o que é que conta mais na hora de atrair o voto da população.

Essa é uma entrevista para ser lida nas entrelinhas.

Taí uma pauta que os jornalistas sérios bem que poderiam perseguir.

Bodega - O que é preciso para se eleger um vereador?
Publicitário – É preciso ter um planejamento de campanha estudado para que o candidato atinja o número de votos necessários, o que depende da sua coligação e dos concorrentes. Esse plano envolve as ações e os seus custos.

Bodega - Dá pra ser eleito com pouco dinheiro?
Publicitário -  Não dá. A não ser que haja um fenômeno cultural ou social. A não ser que o candidato seja um artista ou aconteça algo espetacular. Na década de 80, o voto ideológico começou a sofrer. As marcas da ditadura foram se apagando e a política passou a se profissionalizar mais. Hoje o candidato tem que gastar muito dinheiro pra se eleger.

Bodega - O que você chama de ‘profissinoalização da política’?
Publicitário - Não era tão normal uma pessoa enriquecer pela política há 30 anos. As personalidades tinham outros propósitos. Hoje você vê pessoas que não são empresários, não produzem nada, não geram riqueza. Essas pessoas enriquecem somente com a política. Isso é o político corrupto profissional. Que antes era excessão e hoje é praticamente regra. Não dá pra generalizar, mas a grande maioria se comporta desse jeito. Você já pensou uma campanha pra vereador custando um milhão de reais? Se o sujeito passar quatro anos ganhando o salário de vereador não chega a cobrir metade do investimento. Então…

Bodega - Então?
Publicitário: Então é claro que a verba de campanha é viabilizada por trocas e acordos escusos. Que lesam os cofres e que interferem na vida do povo.

BodegaÉ possível dizer, por exemplo, quanto custa eleger um vereador numa cidade como o Recife?
Publicitário - Depende da quantidade de votos que ele precisa. Depende da sua trajetória… Cada caso é único. Mas todos sabemos que uma campanha com menos de 300 mil reais é precária.

Bodega - Precária? Mas 300 mil é muito dinheiro…
Publicitário – Avalie um milhão…

Bodega - E esse dinheiro é utilizado de que forma? Como são conquistados os votos?
Publicitário - Isso também depende do planejamento. Uma boa parte do valor vai para material de campanha. Outra boa parte vai para acordos com líderes comunitários. Apoio às bases. Dependendo da negociação, o líder pode ganhar por número de votos conseguidos. Ele se articula e angaria votos nas comunidades.

Bodega - Dá pra ser eleito sem essa negociação com as lideranças?
Publicitário - Como a gente falou antes, o voto de opinião praticamente não existe mais. É pouquíssimo provável que alguém se eleja sem as lideranças.

Bodega - Com muito dinheiro no bolso pra essas negociações, dá pra não se eleger?
Publicitário - Dá sim. No futebol, às vezes um time milionário não consegue chegar ao título por falta de inteligência na gestão. Isso pode acontecer também em uma eleição para vereador. O que pode existir também é um número muito grande de candidatos fortes em uma mesma coligação e alguém com muitos votos não entrar. Essas coisas são possíveis.

Bodega - Você fala às vezes como se as propostas do candidato não tivessem tanta importância. As idéia fazem alguma diferença?
Publicitário – Fazem sim. Tem gente que consegue votos com boas idéias, mas isso não é o bastante na maioria das vezes. O que ocorre também é que, nessa época, o público é bombardeado com muita informação e, muitas vezes, informação sem qualidade. A gente vê candidato dizendo que vai fazer escola, casa… Mas sabemos que isso não é atribuição de vereador. Tem muita gente despreparada e a quantidade enorme de candidatos acaba confundindo um pouco o eleitorado.