Roberto é, por assim dizer, meu amigo particular.
Nos vemos pouco, é verdade.
Normalmente aos domingos ou às quartas, quando tem jogo do Sport e eu vou para as sociais.
Roberto está lá, com um isopor que chega a pesar mais de 10 quilos. No ombro.
Vende água e refrigerante. O que dava mais dinheiro, a cerveja, foi proibida por alguma mente brilhante, no primeiro semestre.
Não é esse o trabalho principal de Roberto. É a ‘viração’, como ele chama. Dá pra comprar o pão, o leite e o ovo pra suas cinco crias, além da esposa.
Até a semana passada, Roberto trabalhava numa gráfica.
Estava lá há sete anos e garante que já fez de tudo. Ultimamente fazia costuras de livros.
Não recebia horas extras, mas não raro trabalhava noites e fins de semana.
Um novo gerente não foi com sua cara e acabou dando-lhe baixa na carteira.
Vai receber alguns direitos, mas vai negociar para poder receber logo, sem precisar entrar na Justiça.
Oficialmente, Roberto está desempregado.
Deixou comigo seu telefone em letra bem desenhada nas costas de um panfleto de publicidade.
Se você ou alguém que você conhece quiser contratar um cabra rochedo, pode falar com Roberto.
Aqui vai o currículo dele, em linhas gerais:
Roberto, pernambucano, casado, cinco filhos, sete anos de experiência em gráfica, mais de dez de gazoseiro em campo de futebol (nunca errou um troco), trinta de vida, boa reputação, braços fortes, cabeça lúcida, passos firmes, muita vontade de trabalhar e de receber um salário justo por sua competente força de trabalho.
Você faz o que faz para receber dinheiro?
Ou recebe dinheiro para fazer o que faz?
Se você disser que é a mesma coisa, naturalmente não entendeu a pergunta.
“O amor é um bichinho
Que rói, rói, rói
Rói o coração da gente
E dói, dói, dói”
(Carmen Silva”
Em Moçambique, eu costumava dizer que até as árvores sabiam como se transmite o HIV.
Mas nem por conta disso as pessoas usavam camisinha quando faziam sexo.
Cada vez mais, eu e você sabemos mais sobre os efeitos nocivos do aquecimento global.
A gente sabe que a terra está esquentando, que as geleiras estão derretendo, que o mar está avançando para cima das cidades.
A gente sabe que para reduzir esses efeitos, a gente tem que consumir menos, reaproveitar mais, reciclar mais.
Mas você, o que faz?
Há alguns anos, conheci um projeto supimpa.
Chama-se Edifício Ecológico e é tocado por um espanhol-americano-cabeludo-galego chamado Mark Burr. Gente finíssima.
Em parceria com uma associação de catadores, ele faz formações em edifícios do Recife. Instala baldes de lixo para material reciclado e, semanalmente, catadores credenciados vão lá e pegam o que não serve mais para você – mas ainda serve para a indústria.
O custo para o condomínio não passa dos R$ 30 reais por apartamento. Uma vez só. É provavelmente menos do que você pagou na conta do bar semana passada.
Quando seu prédio entra no projeto, contribui não só para o meio ambiente, mas para a valorização do trabalho de centenas de pessoas que tiram seu sustento dessa importantíssima atividade.
Aqui embaixo tem um vídeo falando mais sobre o projeto.
Se eu fosse você, eu tentaria falar com seu síndico sobre isso.
Há coisa de uma semana, quando começaram a nascer os furúnculos debaixo do meu braço direito, tenho sido cliente habitual do hospital na esquina da minha casa.
Como vou sempre na Emergência, no limiar da dor, cada vez encontro-me com um doutor diferente.
Ainda não tive a sorte de atender-me com doutoras.
O primeiro disse que não podia fazer nada. Passou antinflamatório e compressa de água morna. Mandou esperar mais.
O segundo não disse, mas não fez nada. A enfermeira foi quem espremeu um dos caroços, deixando o outro para ficar mais ‘madurinho’.
O terceiro fez cara feia para o antinflamatório. Mandou tomar antibiótico. Dois deles. E ainda passou um analgésico potente, daqueles que só se vende com receita médica. Quer dizer, potente no papel. O braço dói cada vez mais.
Essa conta da farmácia deu mais de 80 realezas.
Hoje voltei lá.
Quem estava era o primeiro.
Fez cara feia para o analgésico passado pelo colega.
Disse que não servia.
Falou que eu deveria marcar um dermatologista (na minha quarta visita…).
Ah, e voltou a passar antinflamatório.
Enquanto essa turma discorda, o braço doi, o sono não chega e tudo o que eu espero é a hora de tomar o próximo remédio.
Vai um comprimidinho aí?
No Recife, não tem segundo turno nas eleições.
Em São Paulo tem.
A MTV é de São Paulo, mas passa aqui.
Não produz nada aqui. Nadica de nada.
Então, durante o horário gratuito eleitoral (de lá) a gente não vê nada (aqui).
Não é interessante?