Quer saber? Eu vou escrever mesmo.
Era pra eu ter scaneado o comprovante, mas eu perdi.
Mas vou dizer. Quem quiser provar o contrário que tente.
Semana passada fomos comemorar o aniversário da minha cunhada.
Spirit Hall, bar/boate da classe média arrumada.
A entrada, pra homens, R$ 30,00.
Mas espere até acabar.
Aí você pega seu cartãozinho de consumação e vai pro caixa.
Eles te dão a nota e se você for esperto – o que eu não fui – você percebe que cobraram 10% da taxa de serviço em cima do preço da entrada.
Sacou?
O cartaz diz R$ 30,00. A conta diz R$ 33,00.
Parece que cerca de 500, 600 pessoas estiveram lá.
Olha só quanta taxa de serviço.
Essa turma provavelmente reclama do governo, dos impostos…
Quer saber?
Melhor não.
É, tá devagar a Bodega.
Não é fácil escrever com esse furunco.
Peço paciência.
Lembrei dessa história aí embaixo (quer ler o post anterior?) por causa de um imeiu que acabei de receber.
Quem me mandou foi uma amiga querida, militante do movimento negro.
Dizia o texto (que ela recebeu de alguém) que a novela das seis (ou das sete?) vai ter (ou já tem) um personagem que sofre de anemia falciforme. Convocava a militância a ver o folhetim e a escrever para o autor Miguel Falabela continuar com o assunto.
A anemia falciforme é uma doença que ataca principalmente a população afrodescendente.
É uma doença bastante desconhecida e a divulgação de seus sintomas e de seus tratamentos é uma coisa muito muito muito positiva.
Mas tem uma pulguinha muito safada atrás da minha orelha que não para de morder.
A Rede Globo costuma, aqui e ali, salpicar suas novelas com o que se chama de ‘marketing social’ - que é muito mais ‘marketing’ do que ‘social’, claro. Todos os movimentos são orientados (ou costumavam ser até pouco tempo) pela empresa Comunicarte e pelo publicitário Márcio Schiavo.
Já rolou campanha subliminar para a doação de órgãos, para o combate ao câncer, ao uso de camisinha. Já teve em algumas ocasiões algumas tentativas de se trabalhar o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a causa das crianças desaparecidas, a violência contra a mulher, etc.
A questão é que, enquanto afagam aqui e ali, as novelas continuam tão racistas quanto sempre foram. Tão homofóbicas quanto sempre foram e tão machistas quanto sempre foram.
Esse retrato aí embaixo é da novela “Explode Coração”, que escolheu como ‘causa’ a busca por crianças desaparecidas. Agora me diga, minha querida noveleira, se a emissora quisesse mesmo dedicar-se a encontrar crianças desaparecidas, não poderia garantir diariamente inserções de cinco ou dez minutos em sua programação somente para este tema?
O ‘marketing social’ nas novelas destaca-se pela excessão. Quem assiste à televisão com o olho mais apurado saca logo onde ele está.
Talvez logo depois de o personagem tomar uma Coca Cola, mostar a marca do telefone celular ou elogiar um produto da Natura.
pêésse: uma outra amiga, Rebeca Duarte, também militante da causa étnica/racial, respondeu assim ao imeiu que recebeu:
“Essa é uma forte característica do nosso racismo vampiresco. Morde e assopra. O “sensível” à questão falciforme, Miguel Falabella, não esqueçamos, é o racista convicto que ridicularizou mulheres negras durante toda a sua novela A Lua-alguma-coisa, fazendo uma delas, inclusive, virar mulher-monga no último capítulo. Não retiro a importância da iniciativa. Só alerto para a contemporizaçã o do problema Globo”
Há apenas três anos, o México pede visto para brasileiros.
Antes não se pedia.
Mas depois da novela América, que mostrava um monte de gente locona que ia pra o México na tentativa de atravessar o deserto e chegar nos Estados Unidos, a imigração clandestina bombou.
Então hoje, se você tiver grana e quiser dar um mergulho em Can Cun, vai ter que ir pessoalmente ao Rio de Janeiro antes, se for pernambucano. Tira o visto e aí pode tomar sua tequila à vontade.
Isso só mostra um pouco do enorme poder que as novelas têm de sensibilizar as pessoas para seus temas – seja ele qual for.
Isso também não é novidade pra você nem para as muitas meninas moçambicanas que, embora tenham raízes muçulmanas, começaram a usar adereços orientais apenas depois que viram O Clone.
Eu pensei que estava com um furúnculo (aqui a gente diz ‘furunco’ mesmo).
Errei.
Estava com dois.
Um estourou.
Resta outro.
Dói muito. Muito mesmo.
Aí fui chamado pra trocar uma idéia no Fórum Comunitário dos Coelhos.
Os Coelhos é um bairro da periferia recifense. Fica pertinho do centro da cidade. Pertinho dos melhores hospitais da cidade. Perto, bem perto do Fórum de Justiça, um prédio bonito que dá gosto.
Só que nos Coelhos não tem escola boa, não tem teatro, não tem cinema. E a maioria dos hospitais brilhantes e grandões que o circundam são privados.
De algumas salas nos prédios empresariais na Avenida Agamenon Magalhães dá pra ver os Coelhos. Muita gente que trabalha nesses prédios conhece São Paulo e Nova Iorque. Mas não conhece os Coelhos.
Têm medo de entrar no bairro.
Nos Coelhos tem um monte de gente querendo vencer na vida. Tem gente fazendo e ensinando artesanato. Tem gente ensinando a ler com livros que acha no lixo. Tem gente acreditando na organização da comunidade.
Uma dessas pessoas pegou uma câmera e entrevistou alguns jovens do bairro.
Muitos tinham deixado os estudos por pura falta de motivação.
Um foi perguntado: “Muita gente diz que a juventude não está nem aí para nada, que não quer fazer nada, não se esforça pra nada, não se organiza para nada. O que você acha disso?”
No que respondeu sonolento: “Eu acho que eles estão certos”.
Aqui entre nós: isso incomoda mais do que o furunco do meu sovaco.
E daí se ele for?