Tudo bem que ela tinha tomado umas e outras.
Mas ela estava angustiada. Possivelmente não mais do que eu ou você.
Queria “fazer alguma coisa”.
Que o mundo tá ruim, que tem muita injustiça, desigualdade, intolerância.
Não aguentava mais ficar de braços cruzados. Queria mesmo “fazer alguma coisa”.
Não foi a primeira vez que me perguntaram isso. Nem a segunda. Espero que não seja a última.
Talvez porque eu trabalhe com movimentos sociais, pela militância em direitos humanos.
Cada vez mais encontro mais gente querendo “fazer alguma coisa”.
Costumo responder que “fazer alguma coisa” não é nem precisa ser nada com grandes elaborações.
Que não precisa fazer trabalho voluntário, trabalhar em ONG, distribuir cesta básica. Que pode fazer, mas não precisa.
Digo que dá pra fazer alguma coisa sem sair do emprego.
E é tão simples que pode parecer complicado.
Você aceita fazer um trabalho que você sabe que vai prejudicar a população de alguma forma? Não aceitando, você já está fazendo alguma coisa.
Aceita promover uma empresa que desrespeita o meio ambiente? Não fazendo, você contribui para um mundo mais sustentável.
Reciclando, participando ativamente da vida política (não necessariamente partidária) da sua comunidade, procurando privilegiar empresas familiares e/ou menos agressivas aos direitos humanos e ao meio ambiente.
Querendo fazer mais, também dá.
De vez em quando vou colocar aqui nesta Bodega algumas sugestões para você que está aí incomodada, querendo “fazer alguma coisa”.
Quem sabe assim você se arreta e faz mesmo?
Aí você botou a roupa de domingo.
Muniu-se com o título de eleitor.
Foi à zona, encontrou a sessão.
Quem sabe até levou um filho, uma filha, para ver que maravilha é esse país em que a gente vota apertando os pitoquinhos da urna eletrônica.
O resultado sai no mesmo dia, uma maravilha.
E agora?
Você vai passar mais dois anos reclamando dos problemas que encontra no dia-a-dia?
De que jeito?
Na mesa do bar?
Quando é que a gente vai compreender, de uma vez por todas, que o processo eleitoral é apenas uma face de uma pré-democracia como a nossa?
Você sabe o que é um conselho setorial?
Sabe o que é uma conferência? Já foi a uma audiência pública?
Já tentou, de alguma forma, exercer sua cidadania, exigir seus direitos, fazer-se respeitar?
Se disser que fez isso apenas apertando os pitoquinhos da urna eletrônica eu vou dizer que não vale.
Quando você olha nos olhos de alguém que você não conhece.
Alguém que você cruza na rua.
Ou no trânsito.
Ou numa fila.
Quando você olha nos olhos de alguém.
É uma pessoa o que você enxerga?
Você vai votar para prefeito e vereador pensando que vive numa democracia.
Espero que não deixem esse povo em paz nos próximos anos.
Afinal de contas, essas pessoas vão ser contratadas para cuidar do nosso dinheiro e da garantia dos nossos direitos.
***
Carlos Arthur Nuzman, esta semana, foi reeleito pela quarta vez presidente do Comitê Olímpico Brasileiro.
O fato não teve muita divulgação. Não teve notícia de eleição no site da entidade. Praticamente não teve cobertura de mídia. No conselho, teve gente até que foi eleita sem saber.
Foi esse senhor do retrato que torrou mais de R$ 3 bi no Pan e até agora não conseguiu explicar.
Ele agora quer queimar mais na campanha pelos Jogos Olímpicos do Rio, em 2016.
Se o dinheiro fosse dele, ele teria todo o direito de comer, rasgar, tocar fogo ou jogar pela janela.
Sendo meu e seu – como de fato é – eu acho que ele não poderia fazer isso.
A sacada não é minha.
Nem lembro de quem é.
Mas eu costumo propagar que, para a classe média recifense é mais fácil conhecer Paris do que alguns bairros da cidade.
É gente que anda com desenvoltura nas ruas numeradas de Nova Iorque.
E não saberia se localizar nas vielas de Santo Amaro.
O bairro do Coque é bem central.
Fica ali, à vista do Tribunal de Justiça, dos hospitais e dos prédios empresariais da Ilha do Leite.
É passagem quase obrigatória para quem vai da Zona Norte à Zona Sul – e vice versa.
Passagem. Não paragem.
Embora talvez você não saiba, moram lá quase 20 mil pessoas. A esmagadora maioria é gente muito boa. Gente que levanta cedo, que trabalha duro. Talvez até na sua casa, no seu escritório ou no seu edifício.
É gente que, mesmo tendo seus direitos violados diariamente, continua acreditando na possibilidade de uma vida melhor.
“Revelando o Coque é um projeto desenvolvido desde 2006 pelos moradores do bairro do Coque, no Recife. A idéia é construir entre eles a independência na produção de suas próprias imagens, opiniões e memórias”, diz a apresentação dos slides no Youtube.
Aperte o pitoco e veja você mesma.
Nesta segunda reportagem produzida pela Agência Púlsar sobre o Fórum Social das Américas, ouça as propostas dos representantes do MST e da CUT.
O FSA começa no próximo dia 7 de outubro, na Guatemala.
[audio:http://www.agenciapulsar.org/audios_cob/reportagem%202%202.mp3]