Mais uma vez dei uma chegada no #ocupeestelita. A mobilização, que rolou no último sábado (12/05), juntou uma galera para mais um encontro lúdico político em que se propõe a discutir o direito à cidade usando como mote o projeto Novo (?) Recife, que pretende construir um mega-empreendimento cheio de prédio naquela área esquecida e privilegiada que fica na beira da maré.

Acompanhado de filha, sobrinhas, sobrinho, cunhado e pai, circulei bastante. As crianças (e meu pai) adoraram o raspa-raspa. A turminha pirou também com a chance de brincar com tintas, pintando o muro, a cara e a roupa.

Diferente da primeira vez em que fui, tinha menos gente, é verdade. Também houve quem sentisse falta de um debate mais, digamos, político, em que falas indicassem caminhos e rumos do movimento; em que se pudesse falar um poucos sobre como anda o processo de pressão sobre o poder público para que as devidas licenças não sejam concedidas, etc e tal.

Também senti falta de um pouco mais de conteúdo, mas senti um astral diferente que precisa ser potencializado. Mas deu pra sacar que, mesmo discretamente, o público de sábado tinha um colorido diferente. Muito importante a chegada do pessoal da Ação Comunitária Caranguejo Uçá, da Ilha de Deus, que se propôs inclusive a organizar uma barqueata, agregando-se à luta. Mais discretos, amigos que vivem e Militam no Coque também chegaram por lá.

Aqui e ali, rodinhas de militantes das mais diversas causas aproveitaram a oportunidade para trocar uma ideia, planejar suas ações. A galera da Marcha da Maconha (que acontece no próximo domingo, dia 20) distribuiu panfletos. A turma da Marcha das Vadias (dia 26) também pintou cartazes contra o machismo. Também rolou articulação pela atividade contra a homofobia que vai rolar na tarde dessa quinta-feira (dia 17), na Praça do Derby. Meus colegas do Fórum Pernambucano de Comunicação, mais espalhados, estavam por lá conversando, assuntando, procurando integrar-se com todas essas outras turmas.

Amigos mais ligados à questão urbana conversavam sobre a necessidade de voltar o olhar para outras áreas. Sejam construções desocupadas como a antiga Fábrica da Macaxeira ou o prédio do Banorte da Torre; sejam áreas da cidade que estão sempre na mira do mercado imobiliário, como Brasília Teimosa.

Com uns e com outros, eu dizia – como digo agora – do bacana que é ver todo mundo batendo esse papo num sábado de sol. E da percepção de que o desejo de uma cidade (estado? país?) mais justa, sustentável, livre do machismo e da homofobia, com liberdade de expresão pra todo mundo, em que crianças podem divertir-se livremente nas ruas e onde adultos podem tomar suas próprias decisões é exatamente a mesma luta.

E a gente não tá sozinho nessa caminhada.

Liberdade de expressão é o direito que todo mundo tem de dizer o que quiser. De exprimir suas demandas, suas alegrias e tristezas, de abrir a boca (ou mexer as mãos) para falar o que precisa e o que deseja.

Da forma que quiser. Seja por discurso, texto, artes plásticas, cinema, música, sinais de fumaça ou desenho na areia da praia.

É uma liberdade, como tantas outras, que está em permanente disputa, em permanente construção. E que não é, de forma alguma, absoluta.

Isso quer dizer que, embora tenham o direito de dizer o que quiser, todo mundo precisa ter responsabilidade sobre o que diz. Ou seja, é natural – inclusive e especialmente na democracia – que a sociedade imponha limitações na abrangência dessa liberdade, em nome da manutenção de outras liberdades.

Um exemplo que todo mundo entende é no caso de sexo explícito. É lícito que produtoras façam filmes de sacanagem. Mas parece ponto pacífico que não queremos esses filmes passando na tevê aberta ou em determinados horários, para reduzir as chances de serem vistos por crianças. Não é mais ou menos isso?

Na área da música, a polêmica sobre esta liberdade sempre foi intensa, especialmente no Brasil. No tempo da ditadura militar, todas as canções precisavam ser aprovadas previamente antes de serem executadas em público. Putaria não podia, palavrão não podia, crítica política não podia, como não podia-se cantar nada que pudesse ser interpretado ofensivo aos “valores da família e da sociedade”.

Hoje em dia, pode tudo. Quer dizer, faz-se de tudo. Artistas (?) multiplicam músicas (?) que podem ser vistas como racistas, homofóbicas, machistas e o escambau. E é natural que, indignados, grupos que combatem o racismo, a homofobia, o machismo (e o escambau), que também são sujeitos para expressar-se, procurem estratégias para limitar o alcance dessas mensagens. Evitar que sejam executadas em eventos públicos e gratuitos, que estejam no dial das rádios, por exemplo. São algumas restrições completamente compatíveis com um regime democrático, por exemplo. Afinal de contas, da mesma forma que eu não gostaria que minha filha de cinco anos visse uma suruba na televisão, também não acho bacana ela ser exposta a uma letra que diz que “se é pra pegar novinha eu vou preso satisfeito” (Sheldon, MC).

Muito particularmente, acho que ações específicas contra canções ou artistas específicos acabam saindo como tiros pela culatra. Quando entidades de direitos humanos optam por denunciar um ou outro artista por suas letras preconceituosas, não raro acabam colaborando para a propagação ainda maior da música ou mesmo para o fortalecimento da figura que acaba virando (muitas vezes sem ser) um ‘guardião da liberdade’. Independente de haver mérito, acho que estrategicamente não funciona.

É curioso que, desde o final da ditadura, ninguém mais é preso pelo que canta, né não?. Oooops, não é bem assim. Dois casos específicos levam a gente a matutar. O primeiro, em 1997, quando a banda de hip hop pernambucana Faces do Subúrbio foi presa e levou um pau da polícia em pleno palco, enquanto cantavam “Homens Fardados”, uma dura crítica à PM. A outra, ontem. O rapper Emicida, em Minas Gerais, também foi detido por ‘desacato à autoridade’ por entoar a canção “Dedo na Ferida”, em que propõe, genericamente, que “fodam-se” a elite financeira, políticos e policiais que se comportam como inimigos da maioria da população.

Estou procurando na internet e não estou achando nenhuma ocasião em que os Titãs foram presos por cantarem a música “Polícia”. Pode ter acontecido, mas não tou achando, então vou pensar que não aconteceu, ok?

Nesses dois casos, artistas negros, oriundos de bairros populares, foram detidos enquanto faziam shows públicos e gratuitos em bairros também populares. Nos dois casos, foram presos apenas pelo que cantavam, não tendo sido registrados incidentes de nenhuma outra forma. Os dois casos são simbólicos porque demonstram claramente o recorte social e racial da atuação do estado. Em ambos os casos, a ação da polícia, por si só, justifica a força e a legitimidade das canções.

O ocorrido deste 13 de maio, curiosamente o dia da “abolição (sic) da escravatura”, certamente não vai calar Emicida. As três horas que passou na delegacia certamente vão inspirar um bocado de outras rimas. Gente que nunca ouviu falar do cara parou pra ouvir seu “Dedo na Ferida” e identificar-se com alguma estrofe. É lamentável que episódios como este ainda aconteçam por aqui. Mas é muito bom que sirvam para abrir os olhos da galera por aí.

A ocupação estelítica e a mudança a partir de nós mesmos

11 May 2012 Categoria(s): AnaCrônicas

A galera vai chegar  pelo Cais José Estelita por volta das 10h. Mais uma vez, vão ocupar a área, divertir-se, ouvir música, curtir a brisa do mar e dizer que desejam viver numa cidade diferente, em que as áreas públicas sejam privilegiadas, em que bicicletas tenham o direito de ir e vir e em que edificações cumpram com suas funções sociais. Sim, quem acha que o #ocupeestelita é só para espinafrar o projeto Novo (sic) Recife, tá mais enganado que assinante da Veja.

Claro que o grande mote do levante é a iniciativa que quer (e provavelmente vai) construir uma túia de prédio na beira da maré. Mas acreditem,  a vontade de indignar-se coletivamente dessa turma tem tudo para desencadear um movimento muito forte de transformação – bastante bem vindo e necessário por essas bandas.

Mais uma vez torço pela – e convoco – a ida do pessoal que se organiza na periferia. Rede de Resistência Solidária, Mangue Crew, Caranguejo Uça, Mabi, USI, Bombando Cidadania, Fórum Estadual da Reforma Urbana, a galera do Orçamento Participativo, das rádios comunitárias, das pessoas com deficiência… É hora de estar todo mundo junto. A turma da palafita e a do apartamento. A do elevador e a do muro de arrimo. O da bicicleta-pra-passeio e o da magrela-único-transporte. É, no mínimo, uma bela oportunidade de juntar as crianças, falar sobre a vida e promover uma interação que – numa cidade compartimentada – não seria possível de outra forma. E aí, rapaziada, a semente da mudança não tem como não germinar dicumforça.

Ver essa movimentação – e um ou outro que insiste em dizer que o povo (sic) demorou muito para mostrar indignação – me faz lembrar do processo da Conferência das Cidades, realizada no Recife em 2005. O principal resultado desse momento foi (ou deveria ser) o novo Plano Diretor do município.

Pois bem, nessa época* os movimentos populares, encabeçados pelo Fórum Estadual da Reforma Urbana, botaram quente. Mobilizaram muita gente e aprovou tudo o que quis. O documento final foi tão bom (para os movimentos), que no dia seguinte o então prefeito João Paulo disse que mudaria o texto temendo que seu conteúdo não fosse aprovado pela Câmara dos Vereadores. Apenas um ano depois, a proposta foi enviada para o parlamento municipal. “Era bem melhor do que o Plano de 1991, mas bem diferente que as entidades queriam”, recordou-me um querido amigo, à época assessor da secretaria de Planejamento.

Na Câmara, o projeto comemorou dois aniversários e só foi aprovado no fim de 2008. Mesmo assim, muito dele nunca foi regulamentado. Ou seja, não vale nada. O mesmo bróder lembra de alguns pontos que avançaram, mas não estão valendo. “Medidas anti-verticalizantes como Outorga onerosa, IPTU progressivo e outros instrumentos estão apenas no papel. E a Lei de Uso do Solo deveria ter sido revisada depois, o que não aconteceu”. Ou seja: sozinhos, embora numerosos, os movimentos populares ficaram roucos de tanto gritar e foram atropelados pelo mercado, pelo fisiologismo e pela falta de compromisso da galera que assina (e deixa de assinar) as leis.

Naquele tempo, não tinha rede social, não tinha #ocupecoisanenhuma. Não tinha blog nem tinha espertofone que tira foto em sépia. Não tinha tuíter pra ficar no cangote do vereador nem tinha tanta classe média interessada em tocar o terror revolucionário.

A notícia ruim é que, se a turma do feicebuque já existisse  naquela época, tenho a impressão que a atitude do prefeito e dos vereas seria um pouco diferente. A boa é que existe campo para se avançar. E que se for possível juntar os diversos recifes numa brincadeira só, não vai ser difícil todo mundo perceber que tá todo mundo no mesmo barco – lute você contra a violência, pela liberdade de expressão, legalização da maconha ou ciclovia.

Mais uma vez vou tomar um banho caprichado, um café reforçado e vou dar uma chegada por lá. Sabendo chegar, se eu fosse você eu iria também. Afinal de contas, se a moda agora é lutar por direitos, cafona é ficar de bobeira em casa nesse sábado de sol.

 

 

 

 

O pirata e o anônimo atacam novamente

10 May 2012 Categoria(s): Zuvidizôio

A mais nova vítima da espirocação urbana do poder público municipal no Recife é a Praça do Parnamirim, que está levando uma boa mordida para que seja criada mais uma faixa para circulação de automóveis. Do jeito que a coisa anda, daqui a pouco não sobra mais nenhuma área pública livre da passagem dos carros. Indignados, a galera da cicloação foi lá e fez mais uma intervenção político-artística-aperreada, chamando a atenção da gente para uma pergunta nem tão simples assim: em que cidade você quer morar?

Em tempo: neste sábado, dia 12 de maio, tem mais um #ocupeestelita, lá pertinho dos velhos armazéns do Cais José Estelita. Se eu fosse você, eu iria. Nem que fosse somente para conhecer o lugar e ver a galera.

Pior do que a matéria (oi?) que o CQC levou ao ar neste domingo sobre o (já vergonhoso) aumento  do salário dos vereadores do Recife, só a reação dos parlamentares que foram procurados pela imprensa para repercutir a história. De acordo com uma matéria que eu acabo de ler, alguns deles estão pensando em processar o programa, aumentando assim o seu vexame.

Se o humorístico é de muito má qualidade, como eu venho dizendo faz tempo, muitos de nossos representantes também não são essas joinhas todas. Alguém vai dizer (como disseram muito nos comentários bodeguísticos de ontem) que a palhaçada em rede nacional “alertou os eleitores” para que escolham melhor seus candidatos nas eleições desse ano. Eu continuo duvidando e, como já disse, essa onda de “político nenhum presta” nunca levou ninguém a lugar nenhum.

Mas vamos lá. Mais uma vez os municípios estão sendo convidados a eleger seus vereadores e esquivar-se dessa responsabilidade não torna a gente muito diferente do cara que fugiu do repórter (?) mandado por Marcelo Tas. Se o poder econômico, a influência das igrejas e as regras enviesadas do jogo político continuam dando as cartas, talvez seja porque até você, cidadã de bem, está muito mais preocupada em saber quem vai ficar com quem na novela do que o que se passa nas casas legislativas.

Dando uma breve olhada no site da Câmara dos Vereadores do Recife, dá pra se ter uma ideia de quem colocamos por lá quatro anos atrás. As informações que se seguem foram tiradas utilizando como fonte apenas os textos disponibilizados pelos próprios edis na aba “biografia”. Então eu já começo dizendo que oito dos 37 titulares da Casa José Mariano nem se deram ao trabalho de preencher esse campo. Entre eles, Romildo Gomes (PSD), que tem nove mandatos nas costas e ‘decidiu’ que este ano vai abrir mão do emprego e tentar emplacar seu filho.

Aliás, hereditariedade é uma coisa que pega muito por ali. Pelo menos que dez vereadores são parentes de outros políticos que, em algum momento de suas vidas tiveram mandatos os mais diversos. Dos que socializaram informações pessoais, seis afirmam ter ligações com diferentes igrejas cristãs, inclusive o mais votado no pleito passado – André Ferreira (PMDB), integrante da Assembleia de Deus e também filho de deputado estadual. Algumas biografias são curiosas, como a do  Almir Fernando (PCdoB), que dedica o maior parágrafo do texto a seus feitos como futebolista. A médica Vera Lopes (PPS) aproveitou para colocar todos os sete empregos que tem, em hospitais, clínicas e postos do PSF. Sinceramente espero – pela própria saúde da vereadora – que ela tenha se licenciado de alguns antes de assumir o cargo eletivo.

Proposições à camara são parte relevante desse ofício. Só que, de acordo com o projeto “Excelências”, a maior parte delas são as consideradas “sem relevância” como homenagens, batismos de logradouros e sessões solenes. Romildo Gomes (108), o petedobista Marcos di Bria (87) e Vera Lopes (75),  são campeões das homenagens de 2002 pra cá. O mais-velho leva vantagem também por estar no cargo por mais tempo. De acordo com o projeto, apenas quatro vereadores têm mais propostas ‘relevantes’ que ‘irrelevantes’: Aline Mariano (PSDB), Menudo (PSB), Maré Malta (PSD) e Jairo Britto (PHS).

No nosso sistema de governo, o poder legislativo municipal tem a função de nos representar diante do poder executivo, elaborar projetos, fiscalizar ações do prefeito e aprovar orçamentos. Naturalmente, o trabalho não se resume a sessões plenárias. Ir às comunidades, organizar e participar de audiências públicas e receber a população em seus gabinetes é dever dessa turma toda que no ano que vem vai passar a ganhar pouco mais de R$ 15 mil. Um bom salário – embora exorbitante mesmo sejam os benefícios, como o anacrônico auxílio-paletó. Enquanto tem gente cumprindo este papel de formas diversas, como o governista Jurandir Liberal (PT) e a opositora Priscila Krause (DEM), muitos preferem gabar-se dos “projetos sociais” que têm, muitas vezes com associações de bairro que vivem de emendas parlamentares. Cá pra nós, não é trabalho de vereador.

Procurar quem possa realizar esta tarefa do jeito que a gente quer é direito de cada um de nós no processo democrático.  Este ano já tem uma galera se movimentando, querendo mudar o cenário da Câmara. Tenho acompanhado diversas pessoas legais que vão tentar uma vaga na Casa José Mariano. Não é difícil encontrar gente fina querendo furar o bloqueio da máquina política. Quando começar a campanha, vou divulgar algumas figuras – novas – que poderiam fazer a diferença.

Quem troca seu voto por um padrão de futebol, um emprego de gabinete, uma festinha bacana, um litro de uísque ou uma conversa de bar perde a oportunidade de escolher. Quem prefere não votar em ninguém, também. Mas isso não quer dizer que perde o direito de reclamar, de pitacar, de incidir. Afinal de contas, a eleição é apenas uma pequena parte da democracia - esta que é boa, mas dá um trabalho danado.

Quem realmente acha que alguma coisa precisa mudar radicalmente (como eu acho), também pode se interessar pela reforma política, que pretende mudar as regras do jogo, inclusive do financiamento – que hoje acaba praticamente determinando quem entra e quem fica de fora. Diversas entidades da sociedade civil, inclusive, criaram um projeto de lei de iniciativa popular que é muito interessante. Pra conhecer melhor você pode visitar esse site aqui ou ver esse bate papo aqui embaixo.

Se preferir ficar vendo o CQC e achando tudo uma merda, fique à vontade.

O CQC no Recife e as redes sociais: uma repercussão descoisada

8 May 2012 Categoria(s): AnaCrônicas

Tenho o costume de dar uma olhadinha nos feicebuques e tuítes da vida antes de fechar os olhos de noite. E foi o que eu fiz nesta segunda-feira.

De um lado e de outro, pululavam links e comentários sobre o pseudo-jornalístico-pseudo-humoristico programa CQC, que tinha realizado uma matéria (?) de 10 minutos aqui na Câmara dos Vereadores do Recife. Faz tempo que eu não vejo esse programa. Acho-o fraco, raso, covarde e superficial. Mas, enfim, era na minha cidade, o povo tava falando, fui atrás de ver o vídeo no youtubas.

E aí fiquei gostando menos ainda do programa.

Não tem como considerar jornalístico um trabalho que não envolve a checagem, por exemplo. Isso mesmo que faz com que o vereador Maré Malta diga que abdicou do salário da câmara e o repórter (sic) não vá atrás de saber que ele fez isso porque é funcionário federal (com salário maior) e por lei teve que escolher.

Não tem como considerar jornalístico um programa que vem fazer uma matéria (sic) sobre uma pauta de quatro ou cinco meses atrás, que já havia sido inclusive feita pela mídia local. Mídia local que inclusive pagou o maior pau pros funcionários de Marcelo Tas, como se tratassem de profissionais mais gabaritados para fazer perguntas que eles mesmos não fizeram porque não quiseram ou puderam.

O fim do CQC, como o de praticamente toda a programação da tevê comercial, é ganhar audiência (dããããã). Para isso, valem-se dos estereótipos (nada modernos) de que “político não presta”, “político é tudo igual” e afins. Quando alguém é entrevistado, não se buscam respostas, mas deixas engraçadas que possam ser utilizadas para obter o riso. Se a resposta não tem graça, não causa polêmica, fica de fora. Não serve para o programa.

Não interessa a fala qualificada, o debate construtivo. Quando chegou à câmara, por exemplo, o rapaz do microfone encontrou um punhado de militantes da Organização Pernambucana Contra a Corrupção que faziam um protesto. Entrevistou-os com perguntas engraçadinhas, sem dar-lhes o crédito nem dizer porque estavam ali. Ou seja: naqueles primeiros minutos de reportagem (???), a turma acabou virando cenário e escada para as piadinhas egolombrísticas cequecistas. E nada mais do que isso.

É o cúmulo da inocência acreditar que consta na linha editorial de um produto como o CQC o combate à corrupção ou mesmo o estímulo a uma visão crítica da sociedade quanto à política. Afinal de contas, é muito mais fácil encurralar políticos do que descobrir como são formuladas as políticas. Bem mais fácil contar com o senso comum do que discutir porque é mesmo que o poder público local usou centenas de milhares de reais para patrocinar o show de Paul McCartney. Ou mesmo ‘descobrir’ porque é que o governo pernambucano paga, anualmente, mais de 5 milhões para que a Band faça a cobertura do carnaval do estado. Não custa muito ‘protestar’ contra uma prefeitura que atrasa uma obra. Mais difícil é bater na porta da empreiteira que embolsou a grana e não completou o serviço.

No Recife, como de costume, alguns políticos pagaram mico, respondendo com bobagens ou mesmo fugindo da equipe. E reforçaram os estereótipos e preconceitos responsáveis pela audiência do programa. Frequento o ambiente político há anos e concordo que o nível geral do nosso parlamento não é dos melhores. Mas colocar todo mundo na mesma vala comum da ignorância é tão ruim quanto fechar os olhos para os problemas. Conheço muita gente com mandato, de diversas bandeiras partidárias, que não se encaixa nessa classificação.

Nas redes sociais, gente boa comentava a ‘atuação’ de um ou outro ‘encurralado’. Uns mais atrasados, comentavam o absurdo do aumento do salário dos vereadores do próximo mandato, aprovado no ano passado. “Vergonha alheia”, disseram alguns, referindo-se aos vereadores achincalhados. De fato, temos muito do que nos envergonhar de diversos dos nossos representantes. Mas também constrange saber que um programa como o CQC é referência de combatividade e seriedade para algumas figuras da nossa imprensa e da nossa população.

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