Respeite o turista que o turista é legal.
A turista é bonita e cheirosa.
O turista tem dinheiro pra gastar e fazer a gente se desenvolver.
A turista quer carinho e amor. Deseja sentir-se em casa fora de casa. Precisa de ruas bem sinalizadas para saber com facilidade onde comprar uma água mineral engarrafada gelada e sem gelo de procedência duvidosa.
O turista necessita de banheiros bem saneados para poder tranquilamente fazer seu cocô a qualquer hora do dia ou da noite.
A turista não pode ser incomodada por gente suja e feia. Deve poder caminhar tranquilamente em ruas bem iluminadas e ter à sua disposição sempre um grande cardápio com opções divertidas que vão desde uma água de coco na praia até um grande espetáculo de teatro moderno e chinfroso.
O turista precisa contar com transporte público de qualidade. Afinal de contas, não tem tempo nem paciência para ficar esperando o bacurau que não passa depois daquele show tão interessante. Se resolver pegar um taxi, o turista não pode ficar parado no engarrafamento e tem que ser deixado na porta do hotel por um motorista atencioso que só dá a partida depois que já estiver entrado com conforto e segurança.
Se (toc toc toc) acontecer a desgraça (toc toc toc) de uma turista ser baleada, perturbada, assaltada ou mesmo indevidamente xavecada em nosso próprio território (toc toc toc), é bronca.
A resolução do caso há de se tornar prioridade zero no nosso sistema policial e judiciário. Turista vítima de crime faz mal para nossa imagem do lado de fora.
Cai o fluxo de visitantes, o número de vôos regulares, enfim. Crise econômica e diplomática. Parece que até o salário mínimo é afetado.
Sabendo disso, não impressionou o sorriso daquela menina desdentada e suja, catando latinhas mijadas de cerveja, respondendo à simpática assistente social que a perguntava o que queria ser quando crescer:
“Quero ser turista, oras”.
Nosso pesquisador abacateirolzístico K2 Boca de Cantor andou comendo uns bolos turbinados no carnaval. Viu paredes se afastarem, viu o chão lhe sair dos pés. Acordou depois de quatro dias com uma perna maior do que a outra e uma vontade irresistível de encontrar mais um Suceço para sua eventual coluna nesta humilde Bodega. Entre uma garrafa pet de loló (já pela meiota) e uma caixa de serpentinas, encontrou uma fita cassete com um dos artistas mais artísticos que o interior nordestino já conheceu: Bartô Galeno, um dos grandes ícones da música popular roots brasileira.
Bartolomeu da Silva, como foi batizado, nasceu na Paraíba em 1950 e cresceu (mesmo que pouco) em Mossoró. e começou a cantarolar no programa “Seu Mané”, na Rádio Rural. Foi lá que ganhou o título de A mais bela voz.
“Conheci seu trabalho depois de escutar No toca fitas do meu carro, um dos seus grandes sucessos. Todo carro com toca-fitas deve ter um cassete de Bartô. É genial” atesta K2. Entre seus maiores hits estão Cartão postal, Amor com amor se paga, Grande amor da minha vida” e Carro hotel.
A música abaixo chama-se Sandrinha. “É uma canção que eu gosto de ouvir comendo bolo”, elabora nosso pesquisador. Acima, o Rei posa ao lado de Roberto Carlos.
“Minha filha, você não acredita. Entrei na academia, tou tomando uns shakes irados e vou ficar muito gostosa no carnaval de 2011. Você não quer entrar nessa onda comigo?”
“Já faço Pilatos”
“Pilates? Que legal! Bolas de borracha, alongamentos… Dizem que é fantástico!”
“Não, Pilatos”
“Pilatos?”
“É. Tou gorda, molenga, com a pressão alta e lavando as mãos pra essa merda toda. Pilatos”.
Há sei lá quantos anos, temos uma tradição em nossa família. Toda segunda-feira de carnaval, convidamos amigos, amigas e amigos dos amigos e das amigas para comer uma caldeirada e tomar uns gorós antes da concentração do bloco Amantes de Glória.
Nesse dia, acordo cedo e vou esquentar a barriga no fogão pra que a galera possa forrar o estombre antes de cair na folia.
Modéstia às favas, a turma diz que o rango é bom. Como nunca mais eu botei receita na Bodega, acho que é uma boa oportunidade. Vamos lá. Não leve as quantidades muito a sério, o que vale é a idéia.
O que leva:
Frutos do mar – os que você quiser e gostar e puder comprar. Marisco e sururu normalmente um pouco mais, porque dá volume. Um quilo ou dois. Depois polvo, lula, aratu, siri, caranguejo, lagosta, camarão (sem casca), enfim. Umas postinhas de um peixinho bom de cozinhar, como pescada, cação ou dourado também valem a pena. Como minha caldeirada é grande, normalmente eu compro uns 7 ou 8 quilos de frutos do mar. Você talvez não precise de tanta ignorância.
Verduras e temperos – Todos. Cinco pimentões coloridos, umas oito ou nove cebolas, duas cabeças de alho, uns 12 tomates (descascados), uns limões, coentro, salsa, cebolinho, sal, pimenta do reino, folhas de louro, noz moscada…
Outros: vinho branco ou cachaça, um litro de um bom uísque, óleo, azeite de dendê, 1 litro de leite de coco, dois punhados de amendoim.
Pra começar:
Antes de mais nada, bote uma música legal pra tocar (que tal Bob Marley?), uma dose de uísque pra você beber e uma panela com água pra ferver com uma cebola (descascada e cortada ao meio) dentro. Não precisa botar sal.
Aí você aproveita pra picar todas as verduras, bem picadinhas. Pode também usar aqueles multiprocessadores modernos. Mas aí já é maloqueiragem. Peça ajuda e ofereça uma dose de scotch pra quem se oferecer.
Também lave bem direitinho as paradas do mar. Tempere só com uns limões e veja se não tem nada fedendo. Vá por mim. Às vezes tem.
Quando a água ferver, bote e tire as postas de peixe bem rapidinho. Essa leve cozidinha é só pra te ajudar a tirar a espinha. Aí você aproveita o embalo e já coloca o polvo pra cozinhar nessa mesma água. O bicho demora uns 40 minutos pra ficar no grau.
Já tá tudo picadinho? É aí que a mágica se inicia:
No caldeirão, refogue a cebola e o alho no óleo com uma besteirinha de dendê. Coloque também um pouco de sal e as folhas de louro. Quando começar a cebola começa a ficar transparente, jogue os pimentões. Tá quente? Fumaçando? Coloque um pouco de vinho ou cachaça pra fazer aquele “tchhhhhhhhhhhhh” legal. Aí você coloca os tomates, pimenta, noz moscada e mete uma tampa pra servir-se de outra dose de uísque.
A essa altura do campeonato, o polvo já deve estar cozinhado. Troque a música (pode ser um ska ou um pop bem animado) e pique também o octópode. Pedaços de 1cm são o ideal. Ainda não jogue essa água fora.
Já dá pra ir colocando, devagar, os frutos do mar. Começando pelo que demora mais. Sururu, marisco, aratu, siri… Vai colocando devagar pra não esfriar a panela e bulindo sempre com a colher pra misturar os temperos.
O camarão (que cozinha rápido), o peixe e o polvo (que já tão cozinhados) são os últimos bichos a entrar.
Deixa mais um tempinho e enquanto isso tome uma lapada de cana e bata o leite de coco com dois punhados de amendoim sem casca e sem sal.
Aí você coloca um frevo (de rua, por favor!!) na radiola. Na panela: salsa, cebolinho e coentro. Depois, sempre mexendo, coloca o leite de coco (que foi batido com amendoim) e mais um pouquinho de nada de dendê.
Se achar que ficou muito seco, vá acrescentando aquela água fervendo que sobrou do peixe e do polvo, com uma concha.
Abaixe o fogo e vai servindo o caldinho pra ver se falta sal, se falta pimenta, aquela coisa toda.
Quando todo mundo disser que está bom, possivelmente é verdade. Comam com arroz ou farinha. Um limãozinho e uma pimentinha da boa também fazem a diferença.
Uma cerveja pra lavar e você está pronto pra cair na folia.
Algumas de vocês sabem que, na véspera do carnaval, participei com outros comparsas de uma homenagem ao tradicional bloco Quanta Ladeira. No “Quanta”, artistas consagrados como Lenine, Pedro Luiz, Zé da Flauta e Lula Queiroga juntam-se com outros gentes finas e fazem paródias muuuito engraçadas sobre política, cultura, etecétera.
Pois bem, a homenagem que fizemos se chama “Quanta Galera” e parte do princípio que nós, que não somos nem artistas nem consagrados também podemos fazer nossas parodiazinhas. Veja como ficou “Madeira do Rosarinho”, clássico de Capiba tocado à exaustão nos últimos dez carnavals:
Madeiras do Rosarinho
Ninguém aguenta
Essa porra tocar
E faz o meu ovo inchar
Quando a galera começa a cantar
E é aquele mormaço
É todo ano
Homenagem a Ariano
Queira ou não queira o povão
Frevo de bloco é de estourar o meu cunhão
Os bumba-meu-ovo
Cantando essa canção
espera defender
aquela tradição
pra falar a verdade
Em nossos carnavais
Só sei que esse frevo pra mim já tocou demais
Em tempo: tem palavrão, sim. Mas no bloco não vai criança.
Em tempo2: a imagem aí em cima foi recortada de uma obra de Márcio Melo
Quem não lembra da musiquinha aí embaixo?
Faz parte de uma dezena de “clássicos” da publicidade pernambucana. Um dos mais conhecidos jingles da série regional produzida nos anos 80 (e começo dos 90) pela Itaity, do pioneiro Carol Fernandes, para as Casas José Araújo. Mais do que vender tecidos, os comerciais ajudaram toda uma geração a conhecer um pouco de nossa cultura popular – beeeem antes do manguebeat.
A amiga Luciana Pinto me mandou uma tuia há umas duas semanas e venho recordando com alegria as musiquinhas-chiclete que muita gente canta até hoje.