Recebi um imeiu da minha amiga Taíza Brito. Diz que ela e os comparsas Ayrton Maciel, Éricka Melo, Jailson da Paz, Teresa Maia e Tiago Roffé estão bem empolgados. Isso porque em algum momento deste dia primeiro de março vai entrar no ar o blog Viva Pernambuco, filho dos seis.
Na mensagem tem escrito que “O Blog vai trabalhar com um conceito de jornalismo que se ampara na difusão de notícias e imagens que propaguem ações positivas e que contribuam para ampliar o olhar sobre o que acontece de positivo ao nosso redor”. E eu achei isso uma coisa muito legal.
Pra marcar o lançamento, vai rolar às 19h, na Livraria Cultura, uma palestra de Maria Paula Schmidt Carvalho, integrante do IVOH – Images and Voices of Hope – um diálogo internacional sobre mídia como agente de transformação global. Honestamente, não conheço nem a moça nem essa organização. Mas, cá pra nós, parece coisa interessante.
Tou torcendo pra ter coquetel. Adoro aquelas coxinhas pequenininhas.
Suo e bicas enquanto escrevo. Suo em bicas enquanto estou sentado, deitado, parado ou andando. Suo em bicas assim que saio do chuveiro frio, a qualquer hora do dia ou da noite. Se estou respirando, possivelmente estou suando.
No sul, o programa dominical avisa que as ostras estão magrinhas. A água, quente demais, prejudica o desenvolvimento das bichinhas.
Os moços e moças da televisão mal respiraram depois do terremoto no Haiti. Agora é a vez do Chile, que vem com tsunamis ‘de brinde’ para o Japão e o Havaí. Furacão na Europa. Tempestade em Campo Grande. Até um dia desses eram enchentes em São Paulo, deslizamentos no Rio de Janeiro.
Os desastres ambientais já não mais se revezam. Vêm todos de uma vez e confundem o bom-mocismo das campanhas de solidariedade. Pessoas de bom coração já não sabem mais pra onde estão indo aquele garrafão d’água mineral e aquela caixa de aspirinas que deixaram no carrinho do supermercado destinado às doações.
Mas é só ligar o ar-condicionado que o aperreio vai embora.
O local era uma loja de brinquedos, num xópim quase bacana da cidade.
Enquanto pagava por um macaco de pelúcia, esticava as orelhas para ouvir um vendedor falando com a moça do caixa.
Ele, vibrante. Olhos brilhantes. Penso que saltitava.
Ela, blasé. Braços cruzados. Seus olhos apontavam para o rapaz, mas penso que olhavam algo por trás dele.
O moço, verborrágico:
“Dá pra comprar, Maria. Dá pra comprar. Terreninho massa. Todo plano. Plano plano mesmo.Vinte por trinta e cinco. Grande, grande. O cara tá pedindo quinze mil. Vê, quinze mil! Dá pra financiar. É bem pertinho da pista. Tem plano de saúde no mesmo quarteirão. Água e luz também. Oxe oxe. Né bom não? Né bom não?”
A moça dava aqueles sorrizinhos só com a bochecha. Ele continuava empolgado, agora cutucando um amigo que passava por perto:
“É grande mesmo. Vinte por trinta e cinco. Todo plano, tu precisa ver. Oxe, por quinze mil. Vê só. Terreninho massa. Dá pra fazer umas duas casas. Uma o cabra mora, outra aluga. Tás ligado onde é? Ali, na beira da pista mesmo, perto do terminal. Vê só, perto do terminal da integração, rapaz. Dali o cabra pega ônibus pra todo lado”.
A moça olha pro lado e o riso vai pro nível do deboche. Finalmente abre a boca:
“Mas é um povo que pensa feito pobre, né? Fica aí falando de ônibus… Em vez de pensar que vai ganhar dinheiro, que vai comprar um carro… Fica comemorando que tem ônibus na porta…”
O outro nem pensou duas vezes:
“Que nada, bestona. Claro que vou comprar carro. Mas já tou pensando nas visitas. Ou tu num vai pro meu aniversário?”
Passos firmes, olhava um horizonte que sorria para ele. Deixava a semiescravidão da cana, o sol forte no quengo, o facão que encaliçava as mãos e o barracão onde trocava seu trabalho severino por uma cesta básica. Arroz, feijão e farinha que calariam o choro de fome dos três meninos por semanas, talvez um par de meses.
Ia só, olhava para frente. E foi deixando seus quilos no meio do caminho. Tinha orgulho e queria mais da vida do que os R$ 314 mensais para cortar três toneladas de cana por dia.
Seguia. Queria asfalto, prédio, cimento.
Andava e mostrava que os pés grossos do mato também resistem ao pixe urbano.
Pedia emprego: não.
Abrigo: não.
Conforto: não.
Comida: não.
Turista indesejado, passo a passo ia sentindo o estômago alargar-se dentro de sua barriga já murcha. Estava vazio por dentro e a água que bebia era a que conseguia fazer com a própria língua roçando o céu da boca.
A cada ‘não’ que ganhava na nem-tão-grande cidade, sua Vila de Santa Fé ia ficando mais bonita. O céu do sítio, mais azul. A terra, mais fértil.
Parado na frente de uma loja de eletrodomésticos, ouviu um engravatado falando de meritocracia. Muito honestamente, não compreendeu. Mas achou quase uma autoridade aquele senhor de cabelos brancos que não podia diferenciar uma algaroba de uma aroeira.
O orgulho foi quem caiu primeiro. Chegou ao chão segundos antes de a primeira lágrima evaporar no parelelepípedo.
Pernas tremiam, secas.
Joelhos não mais aguentavam o corpo tão pesado e tão leve. Seco.
As mãos, perdidas, procuravam sustentar-se em algo que já não existia.
E o corpo todo foi de encontro à terra dura da calçada, atrapalhando um Fiat que queria dar ré.
Agora deitado, o homem passava quase despercebido. E derrubava a todos, que caímos juntos – mesmo sem saber.
Respeite o turista que o turista é legal.
A turista é bonita e cheirosa.
O turista tem dinheiro pra gastar e fazer a gente se desenvolver.
A turista quer carinho e amor. Deseja sentir-se em casa fora de casa. Precisa de ruas bem sinalizadas para saber com facilidade onde comprar uma água mineral engarrafada gelada e sem gelo de procedência duvidosa.
O turista necessita de banheiros bem saneados para poder tranquilamente fazer seu cocô a qualquer hora do dia ou da noite.
A turista não pode ser incomodada por gente suja e feia. Deve poder caminhar tranquilamente em ruas bem iluminadas e ter à sua disposição sempre um grande cardápio com opções divertidas que vão desde uma água de coco na praia até um grande espetáculo de teatro moderno e chinfroso.
O turista precisa contar com transporte público de qualidade. Afinal de contas, não tem tempo nem paciência para ficar esperando o bacurau que não passa depois daquele show tão interessante. Se resolver pegar um taxi, o turista não pode ficar parado no engarrafamento e tem que ser deixado na porta do hotel por um motorista atencioso que só dá a partida depois que já estiver entrado com conforto e segurança.
Se (toc toc toc) acontecer a desgraça (toc toc toc) de uma turista ser baleada, perturbada, assaltada ou mesmo indevidamente xavecada em nosso próprio território (toc toc toc), é bronca.
A resolução do caso há de se tornar prioridade zero no nosso sistema policial e judiciário. Turista vítima de crime faz mal para nossa imagem do lado de fora.
Cai o fluxo de visitantes, o número de vôos regulares, enfim. Crise econômica e diplomática. Parece que até o salário mínimo é afetado.
Sabendo disso, não impressionou o sorriso daquela menina desdentada e suja, catando latinhas mijadas de cerveja, respondendo à simpática assistente social que a perguntava o que queria ser quando crescer:
“Quero ser turista, oras”.
Nosso pesquisador abacateirolzístico K2 Boca de Cantor andou comendo uns bolos turbinados no carnaval. Viu paredes se afastarem, viu o chão lhe sair dos pés. Acordou depois de quatro dias com uma perna maior do que a outra e uma vontade irresistível de encontrar mais um Suceço para sua eventual coluna nesta humilde Bodega. Entre uma garrafa pet de loló (já pela meiota) e uma caixa de serpentinas, encontrou uma fita cassete com um dos artistas mais artísticos que o interior nordestino já conheceu: Bartô Galeno, um dos grandes ícones da música popular roots brasileira.
Bartolomeu da Silva, como foi batizado, nasceu na Paraíba em 1950 e cresceu (mesmo que pouco) em Mossoró. e começou a cantarolar no programa “Seu Mané”, na Rádio Rural. Foi lá que ganhou o título de A mais bela voz.
“Conheci seu trabalho depois de escutar No toca fitas do meu carro, um dos seus grandes sucessos. Todo carro com toca-fitas deve ter um cassete de Bartô. É genial” atesta K2. Entre seus maiores hits estão Cartão postal, Amor com amor se paga, Grande amor da minha vida” e Carro hotel.
A música abaixo chama-se Sandrinha. “É uma canção que eu gosto de ouvir comendo bolo”, elabora nosso pesquisador. Acima, o Rei posa ao lado de Roberto Carlos.