Aí tou eu, dando uma navegadinha básica na Internet.
Procurando dar visibilidade aos movimentos pelo direito à comunicação, espalhando uns vídeos do Pé na Rua pelas redes sociais, escrevendo roteiros entre um tuíte e outro.
Uma olhadela pra os trending topics*, só por olhar.
Nos tops do Brasil, uma hashtag me chamou a atenção. Não poderia passar desapercebido: #sanduichedebuceta
É isso mesmo, dona Maria e seu José. Me desculpem repetir, mas é isso o que estava lá. Essas letrinhas. Cliquei pra ver. Dezenas, centenas, milhares de comentários pretensamente engraçados. Alguns, em inglês, afirmavam que este sanduíche trata-se de um reforço alimentar frequentemente utilizado no Brasil para tratar crianças com desnutrição. Um velho golpe para atrair a atenção gringa.
Não demorei pra ver do que se tratava. Num dos sites de humor (sim, de humor) mais vistos do país, especialmente por adolescentes (sim, adolescentes), encontrei a resposta para tanto frisson. Pois o tal blog exibia um vídeo originalmente postado num site de pornografia. Nele, uma bela moça de, no máximo 20 anos (talvez esteja exagerando a idade), ensinava como fazer o tal sanduba. Nada de muito complicado. Muita maionese nas partes baixas (à mostra), muito esfrega-esfrega, depois pão e carne. No vídeo, a moça age com a naturalidade de quem está falando de alface, tomate e queijo.
Longe (muito longe) de mim a bizarrice de me opor à sacanagem. Longe de mim achar que uma menina não pode sentir prazer masturbando-se ou mesmo expondo-se para quem quiser ver.
Mas confesso que o vídeo me deixou confuso.
Talvez pela naturalidade da ‘aula’. Talvez por ser possivelmente o vídeo mais assistido de todo o Brasil nesta aprazível manhã de terça-feira. Talvez por estar num site de humor bastante frequentado por adolescentes do país inteiro. Tudo bem, no título havia um sinal de (+18), indicando que o conteúdo é impróprio para menores de idade. Muitas crianças queridas curtem brincar na internet. Muitas crianças queridas curtem sites de humor. Muitas crianças queridas e desconhecidas certamente assistiram, deram risadas e compartilharão o vídeo durante todo o dia de hoje.
E eu, honestamente, não faço a menor ideia do que pensar. Se é bom, se é ruim, se é completamente irrelevante nos dias de hoje.
Alguém, por favor, me diga que eu sou um velho careta.
*os trending topics, ou #TTs, são os assuntos mais comentados do twitter num dado instante.
Em 11 de setembro de 2001, quando o primeiro avião esbolachou-se na primeira das torres gêmeas de Nova Iorque eu tava de pijama, na casa da minha mãe.
Era de manhãzinha e eu só iria trabalhar à tarde, fazendo uma emocionante cobertura de um não menos (nem mais) emocionante treino de futebol.
Lembro de ter comentado com um colega, já no clube, que a reação americana iria ser bem mais espetaculosa do que aquele terrível ataque terrorista.
E foi.
Eu lembro que não sabia (mesmo!) do outro ataque terrorista de 11/09. Daquele que aconteceu no Chile, em 1973 e que acabou com o golpe militar contra Salvador Allendre e que deu origem a uma das ditaduras mais sanguinárias da América Latina.
Também não sabia do monte de municípios pernambucanos que fazem aniversário nessa mesma data. Coincidências.
Passaram-se dez anos do dia em que o mundo aprendeu a pronunciar ” Al Qaeda” e “Osama Bin Laden”.
De lá pra cá, minha vida mudou bastante. Não pelas torres, mas pelo tempo. Pelas andanças e pela experiência.
De lá pra cá, o mundo mudou bastante. Pelas torres, pelas bombas, pelo tempo, pelas lutas, pelo clima…
Na última semana, em especial neste domingo, fomos convidados a pensar todos esses anos, nossas vidas e o destino da humanidade a partir da perspectiva de dois aviões explodindo em dois prédios.
O que é tão arbitrário quanto dizer que tratou-se do “maior atentado” ou da “maior tragédia” da história da modernidade.
Enquanto em Hiroshima/Nagazaki mais de 200 mil morreram depois do ataque nuclear em 1945.
Enquanto no nosso ‘quintal’ brasileiro, armas de fogo acabam com a vida de 40 mil pessoas por ano.
Enquanto 4 milhões de pessoas estão com fome na Somália (750 mil podendo morrer nos próximos quatro meses)
Enquanto a gente nem mais pensa em nada nisso.
(Vá aí do lado e vote na enquete da Bodega sobre o 11/09/2001)
“O grande controle da mídia vai ser feito pela cidadania. Se vejo uma mídia defender uma causa em que não acredito, simplesmente não consumo aquela mídia, falo mal dela e passo para outra. O grande controle que podemos fazer é dar consciência à sociedade, melhorar a educação e a inclusão para que o cidadão faça este controle, não consumindo a mídia que trabalha com valores que não são de interesse do País”
A frase aí em cima, de acordo com a Agência Estado, foi dita pelo governador de Pernambuco Eduardo Campos, que também é presidente nacional do PSB. Fico pensando como seriam tratados outros direitos se fossem discutidos da maneira com que é o da comunicação.
Se um posto de gasolina vende combustível adulterado, é só parar de abastecer naquele posto. Né, Eduardo?
Se uma linha de ônibus tem veículos avariados, cobradores mal educados e motoristas barbeiros, é só ir para o trabalho a pé. Né, Eduardo?
Se uma escola não presta, basta tirar seu filho daquele órgão de ensino. Né, Eduardo?
Se um hospital não tem leitos ou remédios, simplesmente podemos deixar de consumir os serviços daquele estabelecimento de saúde. Né, Eduardo?
Se a concessionária de energia elétrica erra na conta e não cuida bem de sua rede de transmissão, é só comprar um candeeiro. Né, Eduardo?
Se o açougue vende carne estragada (embora barata), você pode simplesmente deixar de consumir aquela carne. Né não, Eduardo?
As premissas até estariam certas se a gente estivesse falando de marca de sabonete, cor de camiseta, sabor de sorvete ou mesmo preferência de ritmo musical.
Mas comunicação é direito de TODAS AS PESSOAS. E precisa começar a ser tratado como tal.
Fomento à produção independente, mais transmissão local, fortalecimento de veículos públicos, mecanismos de garantam direitos de resposta (ou de esclarecimento, como preferem alguns), diversidade de opiniões e conteúdos. Tais propostas, discutidas e rediscutidas nos últimos anos (inclusive com a participação de empresas do ramo), representam avanços importantes e esperados em políticas de comunicação.
Nos dias de hoje, só não entende isso quem não quer.
Viu, governador?