Você ainda nem leu “Memórias de uma Guerra Suja” e já está sendo bombardeado por comentários sobre a obra de Marcelo Netto e Rogério Medeiros nas redes sociais. Acertei?
O livro nem foi propriamente distribuído, mas já promete que vai dominar as discussões da mesa de boteco ao feicebuque mais perto de você.
A partir de relato de Cláudio Guerra, ex-policial/torturador/assassino convertido ao cristianismo, os jornalistas revelam histórias escabrosas dos porões da ditadura, como execuções, atos de tortura, sequestros e até a incineração dos corpos de ativistas políticos contrários ao regime militar. Se você ainda não sabe do que se trata, dê uma olhada na matéria-teaser que saiu no IG ou mesmo no site oficial da publicação.
Na minha forma de ver literatura, existe um estilo – cada vez mais comum no Brasil – que dedica-se a desvendar tramóias e crimes que ainda não foram devidamente encaminhados juridicamente. Digo que são obras que, num país sério, precisam colocar alguém na cadeia. Nem que seja o autor.
Nesse balde, só para citar os mais recentes, está Honoráveis Bandidos (Palmério Dória), que descasca toda a história de José Sarney na política e Privataria Tucana (Amaury Ribeiro Jr.), que garante escancarar os podres bastidores de processos de privatização conduzidos por governos peéssedebistas.
Mesmo causando tumulto (mais virtual que real, admita-se), ninguém teve que responder à justa sobre a maior parte das maracutaias relatadas nos livros. Ao contrário do que se possa imaginar (que eu saiba) seus autores não parecem estar atolados de processos de calúnia e difamação. Não sei o que você acha, mas pra mim isso já é muito estranho.
Dessa vez, porém, a coisa pode ser diferente. Mesmo sem a força que se pretendia dela, a Comissão da Verdade, recém-criada, tem um prato cheio para guiar sua investigação. O Movimento Nacional de Direitos Humanos já está redigindo uma nota, reforçando a necessidade de se descobrir o que há de verdade comprovável nas acusações do policial arrependido.
Ao contrário das outras duas publicações, que mexeram com aliados políticos ou adversários derrotados, dessa vez o governo tem um desafio numa de suas relações mais complicadas, que é justamente as coma forças armadas (sejam os fardados da ativa ou da reserva). Dessa vez, as vítimas em questão são pessoas com nomes e sobrenomes. Com famílias que há anos procuram seus filhos e irmãos. De gente com quem Dilma Roussef conviveu ou ouviu falar. Da turma da presidenta.
Pelo que se alardeia, será muito difícil fazer com que o conteúdo desse livro, uma vez divulgado, fique sem a devida apuração. Até que ponto pode-se confiar no ex-policial Cláudio Guerra, personagem principal dos relatos? E os empresários supostamente envolvidos em crimes da ditadura, ficarão calados? Vão se defender? Acusar os jornalistas?
Tem tudo para ser um livro que não apenas precisa colocar alguém na cadeia. Não forem os acusados dos horrendos crimes agora revelados, que sejam os jornalistas que escreveram tantas barbaridades, juntamente com o néo-cristão que abriu a boca.
Aliás, se não forem comprovadas as denúncias, sugiro que até os blogueiros que fizerem resenhas divulgando a obra tenham que se retratar publicamente. Pelo possível mal de ter divulgado um livro tão mentiroso sem nem ter lido antes.