“Memórias de uma Guerra Suja” chegou aqui em casa ontem e não consegui largar o livro dos jornalistas Marcelo Netto e Rogério Medeiros até terminá-la.

Não por motivos literários que costumam me prender às publicações de que gosto. O texto é mal escrito, por vezes repetitivo, por vezes desconexo. Deixa clara a intenção dos autores, que precisavam publicá-lo a tempo de pautar a Comissão da Verdade, cuja cerimônia de instalação acontece no mesmo momento em que escrevo esse post. Inteiramente baseado no depoimento do ex-policial Claudio Guerra, assassino confesso tantos militantes contrários à ditadura que nem ele consegue contar, a obra enumera os relatos do hoje pastor evangélico arrependido.

O que não me deixou largar o livro foi a indignação. De perceber quantas histórias escabrosas conta esse septuagenário capixaba que serviu “por ideologia e obediência” ao regime de excessão (embora admita ter sido bem pago por suas tarefas extras). De imaginar por que Netto, ainda na introdução, praticamente pede desculpas a dois de seus ex-patrões (Folha de São Paulo e Organizações Globo) pelo trabalho que apresenta. De ir acompanhando detalhes trágicos de eventos trágicos sendo enumerados através de causos vomitados em duzentas e poucas páginas que parecem-se mais com um boletim de ocorrência que com um trabalho literário.

Abraçado na Bíblia por onde pretende salvar-se, Guerra não mostra necessariamente arrependimento.  Coloca-se como um matador frio e “terrorista de estado”, que era convocado a eliminar não só inimigos dos militares, mas também o que chama de ‘bandidos comuns’ (“quem morre de tiro não sofre”). Diz-se apenas “contra a tortura”, que garante não ter praticado – mas entrega diversos colegas protagonistas desses episódios.

E entrega sem piedade. Enumera lugares, datas, calibres de armas, estratégias de encobertamento.

Cláudio não poupa nomes. Coronéis, policiais, políticos, promotores de justiça, empresários, artistas* (alguns em atividade) são elencados como assassinos, informantes, colaboradores, conhecedores ou amigos íntimos dos grupos encarregados de eliminar suspeitos de “esquerdismo” mesmo na fase de abertura política. Muita gente já morreu sem que suas atividades sombrias fossem sequer divulgadas. Outros permanecem vivos e devem ter suas próprias histórias para contar. A lista de crimes que vai além da ditadura militar e incluem assassinatos “a mando” protagonizados por agentes da repressão que, após a anistia, dedicaram-se à segurança privada.

O livro traz detalhes que vão desde a maneira com que o assassino era chamado às missões até a maneira com que eram financiadas (muitas vezes por empresas privadas**) as ações sangrentas do DOI-Codi. Na ocasião em que – alega – foi decidida a morte (para queima de arquivo) do delegado Fleury, só falta dizer o cardápio do restaurante em que a decisão foi tomada. Quando diz que levou para a incineração os corpos de pelo menos dez militantes mortos em sessões de tortura, a precisão é incrível. Cemitérios clandestinos, estabelecimentos secretos de tortura, corpos sendo jogados no mar depois de “preparados” por médicos de modo a que não apareçam jamais.

Alguns episódios são duros de acreditar, como o caso em que diz ter ido e voltado de Angola, num só dia, em 1977, a bordo de um Hércules, somente para plantar uma bomba na Rádio Nacional. É verdade, porém, que em maio desse ano houve um atentado a esta emissora. Também é difícil de engolir histórias de sua relação com um suposto agente da CIA que comporta-se mais como um traficante de armas. Mas não é impossível imaginar a relação que pode ter o serviço secreto estadosunidense com a entrada de equipamentos e treinamento anti-subversivo.

Em diversos momentos, a narrativa é interrompida por frases como “se vocês investigarem…” ou “precisa pesquisar um pouco mais” ou “isso pode ser descoberto”, indicando o caminho para circunstâncias e relatos que podem provar – ou aprofundar – suas denúncias. Em alguns casos, os jornalistas foram atrás e confirmaram. Em outros, permanecem abertas diversas questões.

Como permanecem abertas as feridas do tempo em que funcionaram os esquadrões da morte criados e gerenciados pelo regime militar. Esquadrões que, por vezes, ganhavam autonomia numa trama que envolve corrupção, dinheiro e fundamentalismo político.

A Comissão da Verdade que hoje se instala no Brasil (com anos de atraso) tem a obrigação de ler esses tristes relatos e investigá-los a fundo. São tantas as acusações, tantos os participantes para quem os dedos de Guerra apontam, que não se pode acreditar tratar-se tudo de ficção senil. Preso em regime aberto (condenado por um crime que, curiosamente, nega ter cometido), o ex-policial diz que está à disposição para prestar esclarecimentos e dar sua contribuição para que a história seja passada a limpo.

A quem é citado no livro, sugiro que ajude a esclarecer a verdade ou entre imediatamente com um processo por danos morais contra Guerra, Netto e Medeiros. É o mínimo que podem fazer.

Quantos Cláudios existiram no país? Quantos – e quais, e de que forma – empresários contribuíram para os crimes de estado cometidos durante a ditadura? Onde estão os corpos de militantes desaparecidos? De onde saíam as ordens para sequestros e torturas que multiplicaram-se naquele tempo?

Enquanto todas essas questões não forem esclarecidas, a história do Brasil permanece sob tortura.

*Wagner Montes, Sargentelli, Lúcio Mauro, Ciro Batelli, Carlos Imperial e Jece Valadão são citados no livro. Deste último, morto em 2006, Guerra afirma que gostava de acompanhar in loco execuções de ‘bandidos comuns’.

**Usina Cambahyba, White Martins, GasBras, Banco Mercantil de São Paulo, Sudameris, Viação Itapemirim, Folha de São Paulo e Mappin são algumas das empresas elencadas no livro, além do jogo do bicho)