Um enfermeiro confuso viciado em taxidermia. Um professor viciado em livros. Uma dama bonita e cheirosa viciada no marido mas que, com raiva dele, doa uma biblioteca inteira pra ser vendida à reciclagem pelo peso. Uma outra moça, mais nova, carente de carinho, que foge da vida disfarçada de Monga no meio do Carnaval pernambucano.  Homens que nasceram com corpo de mulher. Mulheres em corpos masculinos. Preconceito.

“Aqueles livros não me iludem mais”, livro do escritor e jornalista Cícero Belmar, não durou um vôo de ida-e-volta para Aracaju.

A obra, um romance composto de vários contos (ou vários contos que juntam-se num romance?), é daquelas que se lê numa tacada só. Não só pelo belo texto do autor, que não poupa detalhes em descrições de cores, locais, aromas e texturas – mantendo a agilidade e a leveza da narrativa mesmo em momentos em que seu conteúdo se torna mais árido. Mas também por suas entrelinhas nos jogam na cara mazelas da natureza humana tão comuns ao nosso cotidiano e que nem sempre prestamos atenção. O homofóbico que tem atração por homens; o ciúme doentio; a indiferença diante do sofrimento alheio; as dores da baixa (e da alta) estima.

Também – que bom – poder ler um livro em que a história se passa em cenários com os quais podemos nos relacionar. A rua da Aurora, o Parque 13 de Maio, o Recife Antigo. Nada contra (muito pelo contrário) romances que se passam noutros locais do Brasil ou de qualquer outro lugar do planeta. Mas também é gostoso (e raro) pode-se ver dentro de uma trama, podendo fazer aquele ‘cineminha’ do roteiro na cabeça tendo a clareza dos lugares por onde caminham e sofrem os personagens.

Num tempo em que a distribuição de livros em papel é capenga e em que as livrarias chegam a morder metade do preço de capa, não é fácil vender (ou comprar) livros independentes ou de editoras menores. Assim, o caminho mais fácil de se botar as mãos no livro de Belmar é separar 25 reais e ir numa banca de revsita que fica na esquina da Sete de Setembro com a Avenida Conde da Boa Vista – um local que, por sinal, remete ao romance (ou contos?)