O lugar é o estádio Gileno de Carli, no município do Cabo de Santo Agostinho.
Arquibancada de armação. Três e meia da tarde. Sol daquele que faz mal. Muita gente preferia estar na praia. Eu e outros viciados esperavam a bola rolar para mais uma partida do Campeonato Pernambucano de Futebol.
Passa o moço com um isopor nas costas. Sempre admirei os vendedores nos campos de futebol. Carregam peso, aguentam o sol, são maltratados e ainda levam nome de ladrão.
Ao meu lado, pediram uma água.
Não sei se é minha cara. O ambulante me olha, cúmplice.
“Gordinho, tenho daquela boa também, viu?”
Deve ser minha cara. “Não diga…”
“Digo sim. Garrafinha de uísque é R$ 25 e latinha de Skol é R$ 5,00. Tu com uma barba dessas deve estar com calor…”
É minha cara.
Flashback. Desde 2008 está vetada a venda de bebida alcoólica nos estádios de futebol. Dois anos depois, a violência em dias de jogos permanece uma preocupação das autoridades. Os episódios mais preocupantes acontecem fora das arquibancadas, onde sempre aconteceram.
Voltamos ao Gileno.
“Cinco conto numa cerveja?”, reclamei, que quem não chora não mama e quem arrisca não petisca.
“Meu velho. Trabalho nisso há vinte anos. Três filhas. Uma já tá na faculdade e vai ajudar o pai. Depois da proibição o negócio tá pau. Tu sabe o que é entrar com uma bicha dessa aqui? Se me pegam, capaz de me proibirem de voltar a vender. Só de multa, é mais do que eu ganho num mês inteiro. Fora a vergonha. É cinco conto, velho”.
Tomei duas pensando na inflação imediata trazida pela ilegalidade. Claro, além de cansativo, chato, estressante e mal pago, o serviço agora é praticamente criminoso, visto que é a própria Polícia Militar a encarregada de aplicar a medida (que não é legislativa, diga-se). Maiores os riscos, maior a dificuldade de se chegar ao cliente final, maior o valor agregado do produto agora proibido.
Qualidade também cai. Ninguém tem como garantir (ou cobrar) que o uísque seja legítimo ou que a cerveja esteja gelada (por acaso estava).
Intervalo de jogo e uma gritaria é ouvida embaixo da arquibancada. Espio e vejo dois ambulantes deixarem seus isopores de lado e partirem para as vias de fato. Um torcedor do meu lado olhou para baixo, de uma risada e gritou para a PM: “Algema esses feladaputa!”.
Deixando a civilidade de lado, os dois sofredores trocavam sopapos por clientela, troco, empréstimo, dinheiro.
Dizem até que foi por causa de cerveja.
Aline Moura
5 de April de 2010 às 11:54 am
Texto ótimo, Ivanzinho.
Anizio Silva
5 de April de 2010 às 12:13 pm
A proibição da bebida alcóolica nos estádios deve ser uma das decisões políticas mais imbecis de nossa assembléia legislativa, e já se provou absolutamente inócua pois não coibiu violência alguma.
Esse projeto talvez rivalize em bobagem com o da assembléia legislativa do rio, que tentou – imagine só! – proibir o funcionamento de lan houses perto de escolas.
neco
5 de April de 2010 às 5:50 pm
gde texto, retwitado e repostado pelo growroom
http://www.growroom.net/board/index.php?showtopic=34729
aguarde muitos comentários e visitas, ivanzin
J.
6 de April de 2010 às 4:57 pm
nos comentários, 3 x 1 pra o Santa!!!
Maurício Targino
7 de April de 2010 às 1:34 pm
Grande texto e excelente contribuição para um importante debate. A proibição da venda de cerveja nos estádios em nada contribui para a diminuição da violência no futebol. Quem quer confusão, vai arrumar no estádio, fora dele (onde quase sempre acontece). Isso com ou sem bebida alcoólica (e quem é de briga sabe que o caminho mais curto pra levar uma surra é brigar bêbado).
3×2, vamo virar esse placar, Leões
Fernando
9 de April de 2010 às 12:21 pm
Sou totalmente a favor da venda de bebidas alcolicas no estádio mas acho que se hoje está tabulado de errado e proibido infelizmente é isso aí. O que temos que fazer é buscar mudar (e é difícil) a legislação e não apoiar o mercado negro (por melhor que ele nos possa ser útil).