Tudo bem que o Fluminense se lascou ontem, quando perdeu a final da Copa Libertadores nos pênaltis depois de ter lutado bravamente nos 120 minutos de tempo normal e prorrogação.

Mas vamos deixar a bola de lado um pouquinho.

Olha um pouquinho para a arquibancada. Ontem, eram mais de 80 mil dentro do Maracanã. Mais que o triplo do lado de fora. Todo mundo mobilizado, pensando positivo. Gritando, incentivando o time a vencer. Uma massa apaixonada que não mediu esforços para estar perto do time do coração, para tentar – de alguma forma – fazer parte do que poderia ser a maior conquista desse clube em seus mais de 100 anos de história.

Corta.

Se você já entrou, uma vez que seja, num estádio de futebol, pense comigo.

Se você já presenciou o que é a energia da torcida do Sport, do Flamengo, do Bahia, do Santa Cruz, do Corinthians, do Remo, do Paysandu, sonhe comigo.

Milhares e milhares de pessoas. Em sua maioria, quase sempre, oriundas das classes populares. Gente sofrida no dia-a-dia, acotovelando-se. Se organizando, se articulando para ter seus domingos de glória. Enfrentando fila, comprando ingresso caro, sendo mal tratada de todas as formas pelas autoridades, pelos clubes, pela polícia.

Suportando calor e chuva.

Milhares e milhões (contando com os que – não menos vorazmente – acompanham suas equipes pela televisão) unidos defendendo com unhas e dentes os interesses de suas agremiações. Uma a uma, são as mesmas pessoas que poderão mais tarde se encontrar na fila de um posto de saúde abarrotado. As mesmas que têm as mesmas histórias de violência e preconceito para contar.

Não consigo parar de imaginar o que faria toda essa multidão, coesa e apaixonada, mobilizando-se por uma causa comum além-bola.

O que poderia acontecer se, dia desses, uma torcida organizada, entre um e outro grito de incentivo aos atletas, ousasse dizer o que pensa, a gritar por justiça social, por igualdade, por respeito. Já pensou a Jovem, a Inferno Coral, a Gaviões, aos berros, puxando: “Ei, patrão / presta atenção / a gente tem direito a saúde e educação!”. Ou mesmo: “Vereador /chegou a hora / trabalha certo ou se liga e dá o fora!”. Ou ainda, “Ah ah ah! Reforma agrária Já!”.

Com faixas e dizeres, seu protesto poderia ser visto por milhões, furando o bloqueio dos bonners da vida. Muita coisa poderia sair daí – inclusive nada.

Num ônibus, em São Paulo, pude acompanhar uma discordância entre dois torcedores do Corinthians. Um queria surfar no teto do ônibus. O outro queria fumar um baseado. Um e outro achavam que outro e um estavam errados. Um deles vaticinou:

“Companheiro, uma coisa é o Corinthians. Outra é a caminhada pessoal de cada um”.

E é. Mas nem tanto.