Ontem passou no Opinião Pernambuco, um programa de debates da TV Universitária, a reprise de uma discussão sobre a descriminalização da maconha. Um dos participantes, o psicanalista José Carlos Escobar, especialista no tratamento de dependência, lembrava que a erva foi proibida na década de vinte – não por um clamor popular, mas pela decisão de um pequeno grupo de alto poder político e financeiro.
O resultado a gente já sabe qual é. O ciclo produtivo da planta passou à clandestinidade e caiu nas mãos da criminalidade. Isso tudo não faz nem cem anos e, de lá pra cá, a turma não deixou de fumar. Pelo contrário. Quanto mais gente existe no mundo, mais gente usa mais psicotrópicos. Ou seja: a proibição não surgiu o efeito que se poderia esperar dela. Pior: deu origem a todo um aparato criminoso que não tinha razão para existir. Pior: fez com que boa parte do aparelho coercitivo do estado (leia-se: polícias) fosse ocupado com um problema que antes não existia, com a necessidade de uma quantidade de recursos que não se fazia necessário.
Dê uma respiradinha aí. Pronto.
A relação pode ser forçada, mas essa contextualização me fez pensar no que eu vi nos três últimos jogos de futebol que assisti. Com a venda – e consumo - de bebidas alcoólicas proibidas, sabe o que aconteceu?
No primeiro jogo, muita gente ficou ‘na seca’. Nos camarotes, teve quem se preparou. Levou latinhas e garrafas, bebeu na paz.
No segundo, outras pessoas já começaram a se organizar. Mulheres (que não são revistadas) entravam com garrafinhas plásticas (das de água mineral) cheias de vodca, uísque, rum. Isso no miudinho. Note que com a proibição de uma droga mais leve (a cerveja), outras de maior teor alcoólico, mais fáceis de serem transportadas, já começavam a ganhar o terreno que antes pertencia majoritariamente às latinhas.
No terceiro jogo (esse último em que o Sport meteu 2×0 no Vasco), os vendedores ambulantes (aqui chamados de gasoseiros) perceberam que não poderiam ficar para trás. Em garrafas d’água, de refrigerante ou até de iogurte, bebidas destiladas corriam soltas pelos setores mais endinheirados do estádio, como as cadeiras e sociais. Nas arquibandas, que não fui, imagino não ter sido diferente.
Ouvi até uma história de um coroa que entrou no banheiro do clube distribuindo o conteúdo de uma garrafa (de vidro!) de um blend oito anos.
Você pode achar o que quiser. Mas o fato é que, com menos de um mês de proibição (imposta não por uma lei, mas pela CBF), o mercado do álcool já encontrou uma maneira de driblar a norma. O tráfico rola solto e, de uma hora para a outra, homens e mulheres que vendiam cerveja honestamente tornaram-se contraventores.
Num piscar de olhos.
Até quando?
Dado
27 de May de 2008 às 8:39 pm
Fui no Maracanã essa semana e me deparei com essa novidade. Engraçado no caso é que lá a maconha é que rola solta no estádio. Como sempre. Mas para dizer a verdade não vi bebida alcoólica.
Mandra
29 de May de 2008 às 4:23 pm
muito boa a reflexão, Ivanzinho. Este é o país dos dois pesos e duas medidas – ou melhor, dos dois pegas e duas tossidas.